“Mais uma dose? É claro que eu estou afim. A noite nunca tem fim…”

Cazuza cantava ao fundo e ela pedia mais uma dose, tentando não pensar e pensando. Odiando.

Mais uma vez ele tinha sumido, não respondido, a fumaça ficou no ar assim como a resposta não dada.

Preferiu sair, não ficaria em casa pensando e pensando.

Tomou uma, duas, três doses. A bebida em dose eram suas melhores companhias nesse momento, na hora que a ausência se fazia presente, nos momentos de vazios.

Os vazios sempre a acompanharam. Parada naquele bar se lembrou de quantas vezes esperou aquele, que todos diziam ser seu pai, ir buscá-la.

“Essa semana vamos no parque”. 

Ele nunca aparecia.

“Vou te levar para tomar sorvete”. 

Ela esperava e passou a odiar sorvete.

Todos diziam para entender. Que homem é assim, mas quando ela dizia odiá-lo todos falam: “não fala isso, ele é seu pai!”.

Hoje pode-se chamar de genitor, na sua época era obrigada a chamar de pai, um cargo que doída sair de sua garganta e passar para ele.

Pai se tornou sinônimo de ausência, de obrigação, de respeito, de espera sem fim.

Aí um dia ele aparecia, um presente na mão, um sorriso no rosto e vamos passear!

Não tinha conversa, não tinha brincadeira, não tinha atenção.

“Escolhe o sorvete”, ele dizia.

E em silêncio, bem devagar para durar o momento, ela tomava o sorvete esperando o olhar, o carinho, que não vinham.

Mas ele estava ali, ela não queria ir, mas eles diziam:

“É seu pai, vai, aproveita!”

E ela aproveitava, não sabia o quê, mas todos diziam que ela tinha que aproveitar.

Aproveitou o vazio, o silêncio, que se tornou constante em tão poucos contatos.

Poderia hoje contar nos dedos as “saídas” com seu pai. Não sabia o que era pior, esperar pela presença ou sair com a ausência.

Hoje o vazio a acompanhava, arrumou um que também a fazia esperar, desejar sem querer desejar, e o sorvete foi substituído pela dose ou doses.

Ficava ali, esperando não esperar, uma presença rara e vazia. A presença que aproveitava, pois sabia que não teria mais tarde.

Aproveitando algo que se esvaia, que nunca teve e…

“Mais uma dose? É claro que estou a fim, a noite tinha fim…”. O vazio não passava, mas era substituído pela música, pela dose, pela fantasia, por pequenos momentos que tinha que aproveitar.

E Cazuza canta ao fundo:

“Por que a gente é assim?”.