O SUPEREU FEMININO E O AMOR
A psicanálise começou a se desenvolver quando Freud teve o primeiro contato com as histéricas, quando os médicos da época tentavam curar o que não compreendiam. Mulheres essas que apresentavam sintomas físicos como cegueira, paralisias, tiveram atendimentos de variados modos, tidas como loucas eram tiradas da sociedade e internadas.
Foi através da dor da mulher que o estudo começou, no entanto o pai da psicanálise não conseguiu terminar seus estudos quanto a natureza e dor das pacientes, apesar das grandes descobertas e avanços que trouxe, mesmo que vanguardista, Freud ainda era um homem de sua época, e por isso o machismo ainda contaminava ou impedia alguns avanços.
Agora, ainda que tenhamos um longo caminho pela frente, os estudos com base na saúde da mulher, seu lugar na sociedade, está mais avançado e, com isso, conseguimos ampliar o debate sobre o que a mulher quer, do que sofre, como sofre, e principalmente porque sofre. O presente trabalho busca uma discussão na formação do Supereu feminino e o amor.
De acordo com Freud (1924), o Supereu é a herança do Complexo de Édipo,
O ideal do ego, portanto, é o herdeiro do complexo de Édipo, e, assim, constitui também a expressão dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do id. Erigindo esse ideal do ego, o ego dominou o complexo de Édipo e, ao mesmo tempo, colocou-se em sujeição ao id. (FREUD, 1924, p.21)
No entanto, até mesmo o médico conseguia apontar que a saída, ou não saída, do Complexo de Édipo para a mulher é diferente, então será que podemos cogitar que a sua herança, o Supereu, tem sua estrutura e desenvolvimento diferente do que para o homem?
Estando assim excluído, na menina, o temor da castração, cai também um motivo poderoso para o estabelecimento de um superego e para a interrupção da organização genital infantil. Nela, muito mais que no menino, essas mudanças parecem ser resultado da criação e de intimidação oriunda do exterior, as quais a ameaçam com uma perda de amor (FREUD, 1924, p.104)
Freud nos diz, assim, que a saída do Complexo de Édipo da menina está mais vinculado ao medo da perda do amor, do que pelo medo da perda do pênis como ocorre com os meninos. Algo que então muda a dinâmica da menina ao passar pelo período de latência e saída para o mundo.
A religião, a moralidade e um senso social - os principais elementos do lado superior do homem - foram originalmente uma só e mesma coisa. Segundo a hipótese que apresentei em Totem e Tabu, foram filogeneticamente adquiridos a partir do complexo paterno: a religião e a repressão moral através do processo de dominar o próprio complexo de Édipo, e o sentimento social mediante a necessidade de superar a rivalidade que então permaneceu entre os membros da geração mais nova. (FREUD, 1924, p.22)
O Superego então seria estruturado a partir do complexo paterno e à menina direcionada suas normas internas pelas expectativas externas por medo de perder o amor. As expectativas externas da época em que o médico começava a apresentar suas teorias, eram ditames do que deveria ser uma mulher e seu desejo, como as histéricas conseguiram mostrar que deveriam ser abafados e silenciados.
A repressão, de acordo com Freud (1924), é mais potente nas mulheres. A menina, desde cedo, é obrigada a seguir um número maior de regras, quando comparada aos meninos, como o modo de sentar, brincar, o tom de voz, seus interesses, a obrigação com o cuidado e etc. Tudo isso levou o pai da psicanálise a apontar que a agressividade na mulher sempre sofreu maior repressão, o que a colocava em uma local favorável para intensas moções masoquistas. Tal agressividade seria a justificativa para essa posição masoquista, pois uma vez que há repressão da agressividade, ela é direcionada para o próprio Eu.
A psicóloga e psicanalista, Ana Suy Sesarino Kuss (2022), consegue resumir de modo claro tal entendimento:
Se uma criança internaliza as leis da cultura, isso acontece devido à inibição de sua agressividade, que é consequência da perda de amor. É válido destacar que em um primeiro momento o medo da criança é de perder o amor das instâncias parentais, mas depois ela terá medo mesmo de perder o amor do Supereu, uma vez que ele será o representante das instâncias parentais do psiquismo. (KUSS, 2022, p.105)
O que acontece na luta psíquica sem fim do Eu para atender as demandas do Id e do Supereu é que quanto mais atendido o Supereu é, mais exigente ele vai se tornando. “A cada renúncia que se faz, por medo da perda de amor, uma parcela da agressividade que foi suprimida em busca do amor do outro retorna para o próprio eu” (KUSS, 2022, p.105).
Se pudermos pensar que Freud aponta que a “melhor” saída para a menina do Complexo de Édipo, onde encontraria o feminino, seria ali com o desejo por um filho, se justificaria a busca das mulheres pelo amor fora de si? E ao abandonar ou reprimir os seus desejos para caber no amor do outro a mulher somente traria mais agressividade para si, e automaticamente para o seu Supereu?
Kuss colabora nesse entendimento: “Na tentativa de encontrar o amor do outro por elas, oferecem tudo, e por vezes também perdem tudo, sobretudo o amor por si mesmas, deixando o Eu à mercê da agressividade do Supereu” (KUSS, 2022, p.108).
Ainda que a sociedade tenha avançado com o feminismo, e as mulheres agora se tornaram mais livres para lutar por seus direitos, objetivos e desejos, há de se concordar que ainda recai sobre elas as antigas obrigações. O Supereu marcado e cruel, ainda consegue vincular a mulher às exigências de um relacionamento, de filhos, a busca pelo amor da mãe e validação paterna.
A demanda externa de aprovação e as exigências internas do Supereu, para corresponder às suas normas, faz com que a mulher abra mão do amor por si para ser amada.
[...] se o Supereu se constrói em relação ao medo da perda de amor, e se o amor, para as meninas, é mais importante do que para os meninos, devido à sua identificação à falta fálica na mãe, é claro que isso produzirá consequências, deixando as mulheres, mais do que os homens, à mercê de uma relação masoquista com o Supereu. (KUSS, 2022, Rio de Janeiro, p.109).
A psicóloga, Valeska Zanello (2018), desenvolveu sua pesquisa sobre os dispositivos amorosos, onde aponta que a mulher ainda busca através do relacionamento seu local na sociedade, ainda calando suas vontades, busca no homem ser a escolhida na prateleira do amor. “Dizer que as mulheres se subjetivam pelo dispositivo amoroso implica em sublinhar que elas se subjetivam em uma relação consigo mesmas, mediada pelo olhar de um homem que as valide ou as escolha”. (ZANELLO, 2018, p. 269).
Ocupando um local passivo, abdicando dos seus desejos, e atendendo a demanda do Supereu, com os imperativos externos, a mulher busca se transformar naquela que é mais valorizada na prateleira do amor, onde são ditados os ideais estéticos, normas de comportamento, silêncios complacentes, passividade e atos de cuidado. “As mulheres se subjetivam assim em um heterocentramento (diferentemente dos homens, que se subjetivam em um ego-centramento, ego-ísmo), no qual aprendem a priorizar os outros, sobretudo maridos e filhos, em detrimento de si mesmas" (ZANELLO, 2018, p. 270).
Assim, como tudo exposto, podemos concluir no presente artigo que o Supereu da menina, herdeiro do Complexo de Édipo, se desenvolve diferentemente do do menino, uma vez que a mulher sai em busca de um amor que a valide como mulher, para assim se fazer existir. Necessitando do olhar e aceite do outro, seguindo normas patriarcais a mulher busca suprimir os impulsos do Id e atender cada vez mais as demandas do Supereu, que ao invés de torná-lo mais manso ou brando, faz exatamente o seu oposto, torna-o cada vez mais exigente e pesado na psique feminina.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1923-1925. v.19
KUSS, Ana Suy Sesarino. Amor, feminino e solidão: um estudo psicanalítico sobre invenções da existência. 29 de setembro de 2021. 188 f. Tese de Doutorado. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Psicologia, Rio de Janeiro, 2022.
ZANELLO, Valeska. Saúde, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. 1.ed. Curitiba: Appris, 2018
*Essa resenha crítica foi escrita para fechamento de módulo da Pós-Graduação Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clinica - 2025 - ESPE