Ela corria de um lado para o outro, feliz. A mãe sorria e suspirava.

Prometeu no dia que descobriu a gravidez que nada faltaria àquela criança. Não passaria pelo que passou, não sofreria o que sofreu. 

Primeiro perdeu a mãe, depois perdeu o pai. Não tinha ninguém para ficar com ela, ao menos que soubesse, somente a madrasta que deixava aquela da gata borralheira no chinelo. Ela poderia ensinar Lady Tremaine como ser uma vilã de verdade.

Ah, como odiava a história da Cinderela! Sabia que o príncipe não existia, não esperava que aparecesse para lhe salvar. 

Quando ele apareceu até fingiu, por um pequeno espaço de tempo, ser um príncipe, mas o seu coração não tinha sangue, não pulsava ou doía diante do seu choro, sua dor, seus pedidos de compreensão, presença, amor ou carinho.

Entre noites sem dormir, choros e hematomas agradeceu aos céus quando descobrindo a gravidez, ele nunca mais apareceu. Ela tinha medo de não ter forças para sair daquele relacionamento, sair dele, da esperança de um dia ser algo bom, verdadeiro. 

O abandono pela gravidez, a falta de dinheiro, a casa vazia, a barriga crescendo, a responsabilidade que nunca saía da soleira de sua porta, não a amedrontavam como ele. Como aquela presença. Solidão por solidão, sempre esteve só.

A solidão sempre foi uma constante em sua vida. Até aquele dia que descobriu que dentro de si havia alguém, quando aquela criança pousou em seus braços. Chegou com dor, confusão, medo. Dela e da criança. O nascer é traumático, tanto para a criança como para a mãe. 

Teve que se descobrir mãe, e ainda hoje não sabe se está certa, se é boa suficiente, tenta ser aquela que não teve, a que desejava em sua vida, mas que foi levada contra sua vontade. 

Conseguia dar amor, paciência, carinho, mas às vezes se descontrolava, xingava, dava um tampa. Seu conselheiro era o Google por não ter a quem recorrer.

Hoje toda a vida se movimenta por sua cria, ao tê-la em seus braços pela primeira vez jurou que ela teria tudo que não teve, olhando esse pequeno ser-humano correr pelo parque anseia conseguir cumprir sua promessa. A solidão, sempre uma constante, é amenizada pela voz que grita, pede, chora e gargalha:

Mamãe, olha essa florzinha!”.