Quem nunca sentiu ciúmes que atire a primeira pedra!

Eis aqui um sentimento comum onde, em uma época de desapego, tem dado o que falar. 

Afinal, é certo ou errado sentir ciúmes?


Acredito ser muito complicado falar que algo é certo ou errado, temos que olhar para nós o que sentimos, como sentimos e o que fazemos com isso para então julgar se algo é benéfico ou não.


Mas é preciso começar falando que ciúmes é algo “normal”, todos nós em algum momento vamos sentir ciúme, e para isso vou usar do artigo de Freud, de 1922 “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade” para explicar esse sentimento.



Ciúmes é um estado emocional normal, experimentado quando o objeto amado não está conosco. 

Na relação com ciúme há sempre um terceiro, seja ele real ou não. Essa relação se faz em triangulação.


Você + Objeto + 3ª pessoa


Freud ainda explica que não tem pessoa que não sinta ciúmes, os desapegados de plantão podem até discordar, mas o pai da psicanálise explica que aquele que não experimenta o ciúmes experimentou uma grande repressão em determinado momento da vida, e que se hoje não o sente de modo consciente, de modo inconsciente esse sentimento tem um papel ainda mais determinante, podendo dominar a vida da pessoa sem que ela perceba.


Pois, todo aquele conteúdo que é reprimido e levado para inconsciente começa a dominar a vida do sujeito de modo indireto ou simbólico, uma vez que não encarando o sentimento não há como relativizar ou debater com ele.


Quanto a uma possível “classificação”, são 3 os tipos de ciúmes:


Ciúmes competitivo ou normal:

É o tipo de ciúmes que todas as pessoas podem experimentar, tido como normal, apresenta uma mal-estar e pesar compreensível.

Ele não é exclusivo de relacionamentos amorosos, pode acontecer e aparecer em todas as relações, amizade, família e etc.


Caracterizado pelo medo de perder, pode gerar um pesar na pessoa que o sente, além disso é também uma ferida narcísica, pois além da perda do objeto amado a pessoa sente que não é suficiente para ser amada pelo outro.


Esse modo de ciúmes explicita a falta, apresenta à você a incapacidade de completar o outro, de ser tudo que uma pessoa precisa, te mostra como ser faltante. Também explicita a individualidade de cada um, o outro existe sem você, tem vida própria, gostos e outras histórias.

Sentir ciúmes, fazer contato com a falta, sua e do outro pode ser algo extremamente benéfico!


É um modo de olhar para você, sua história e características, se perguntar onde pode estar errando em um relacionamento, o que está deixando faltar em você ou no outro. Estar em contato com nossas faltas nos torna conscientes do que devemos melhorar em nós.


É também um modo de ter um amor maduro e adulto, sabendo que o outro não vai e não deve estar sempre presente, fazendo suas vontades ou sendo responsável pelos seus sentimentos.


Vale lembrar que aquele amor onde você era tudo para pessoa e ela é tudo para você, foi somente aquele amor do bebê para a mãe, onde no início a mãe deve direcionar toda sua atenção para a vida daquele novo ser, e quando a criança vai se tornando mais e mais independente a mãe também passa a direcionar sua atenção para outros objetos.


O ciúmes não é um fenômeno lógico ou racional, é uma continuação da situação triangular no Complexo de Édipo e/ou nas relações com os irmãos. O ciúmes na vida adulta tem raízes no inconsciente, nessas vivências que criaram modelos que são seguidos, não há racionalidade na reprodução do sentimento primário, agora na vida adulta.


Assim, pessoas que tiveram relações desiguais com os irmãos e precisam lidar com o ciúmes com muita frequência, ou pessoas que tiveram problemas na superação do Complexo de Édipo terão maior dificuldade em lidar com a triangulação e apresentarão maior quantidade de ciúmes do que aquelas pessoas que não passaram por isso. Mas ainda sim, em qualquer dos casos, ele existirá.


Ciúmes projetado:

É uma característica típica na neurose

O ciúme projetado acontece com a necessidade de controle, pois a pessoa não aceita ou tem medo de não ter controle sobre si e seu desejo.

Freud explica que o desejo está presente em qualquer relação, ainda que tenha um relacionamento feliz e satisfatório nada impede que a pessoa se sinta atraída por outra, o que faz a diferença nas relações é a realização ou não do desejo.


Acontece que determinadas pessoas, usando do mecanismo de defesa da projeção, diante do sentimento ou vontade de ser infiel, seja na fantasia ou na realidade, começam a projetar esse desejo de forma extrema no companheiro e com isso exercendo o controle sobre a vida da pessoa.


“Não quero que você saia com fulano”

“não converse com ciclano”

“Onde você está? Quem está com você?”


Muitas das pessoas que sofrem com esse tipo de ciúmes têm posturas mais moralistas e rígidas diante da vida, exatamente pelo medo de perceber o desejo que tem em si. Veja bem, aqui não é o caso de pessoas que já foram traídas e por medo de passar novamente por tais episódios tentam controlar seus companheiros, mas que pessoas que ainda que não tenham quaisquer sinais, estão sempre em alerta.


Para Freud, essas pessoas projetam seus desejos de infidelidade nos companheiros, por terem medo de assumir o próprio desejo (e aqui assumir não é realizar! mas saber que podem desejar alguém), e com isso acreditam que o outro deseja uma traição ou de fato o trai, a satisfação do seu desejo vem em imaginar/acusar o outro de fazer aquilo que gostaria.



Ciúmes Delirante:

é o sobrante de um homossexualismo que cumpriu o seu curso e corretamente toma sua posição entre as formas clássicas da paranoia”


Esse é um tipo de ciúmes extremamente patológico, nele há o delírio da traição. Não somente a pessoa se apega a indícios, como ele tem certeza do que aconteceu, como aconteceu e principalmente com quem aconteceu.


Para Freud tal ciúme está presente na psicose, e vem da negação dos impulsos homossexuais. Incapaz de lidar com tais impulsos, a pessoa então desloca todo seu desejo para o outro e, assim, há a realização desse desejo.


Por isso, nesse caso, a triangulação é com uma pessoa específica, que é objeto de desejo daquele que sofre o ciúme delirante.


Um exemplo para ficar mais claro: 

O marido briga com a mulher ao chegar em casa, ele sabe que ela estava transando com o vizinho, e ele alega ainda que sempre viu como ela dava olhadas para o vizinho, que só esperou ele sair para trabalhar para levar ele para o quarto deles e ali fazer determinadas posições.

Na certeza do que aconteceu, como aconteceu, a pessoa que projeta sobre o outro o seu desejo e ali o realiza


Freud alega que a incapacidade de lidar com os impulsos homossexuais levam as pessoas a projetar sobre a companheira aquele impulso e realização, para assim se satisfazer.



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E você, se identificou com algum desses tipos de ciúmes? Como eu disso, não há do que se falar de ser bom ou ruim, mas o que está ou não te atrapalhando? 

Saber lidar com o ciúmes é uma das coisas que aprendemos na terapia, assim como entrar em contato com sentimentos reprimidos e não elaborados.

Se precisar de ajuda é só marcar sua sessão aqui.